Vou viver cem anos para me conhecer, cem anos para me realizar e outros cem para descansar. Trezentos anos no total. Sendo o dia 299, o dia em que vou morrer, velha, cheia de rugas e fria na minha cómoda cama equipada de uma caneca de chá, um caderno de notas e uns óculos com uma graduação tão grande que sem eles não irei conseguir ver sequer a mancha gráfica da minha caneta no pequeno bloquinho. Não vou ter tempo nem para ver o tremelicar da minha mão nervosa, nem o rosto de quem comigo estiver.
Vou viver muitos anos e, vou ter muitos netos mas, deles vou separar-me quando eles chegarem aos seus 80 ou 90 anos, pois tudo o que menos vou desejar, será vê-los irem-se embora. Quero ao longo dessa vida, ter um companheiro com quem possa falar sobre tudo e sobre coisa nenhuma. Um amigo vá!... Que entenda os meus silêncios de velha de 100 anos e de velha de 250 anos também. Quero sobretudo morrer antes dele porque assim prefiro e porque não quero ter de suportar vê-lo ir também ir-se embora. Espero ser velha e muito culta, conhecendo-me como mais ninguém e ter alguém a meu lado que me conheça por pequenas coisas que só essa pessoa saberá. Que se lembre das minhas asneiras e da minha inteligência de jovem, ou que se recorde ainda disto ou daquilo que colocarei nalgum sítio escondido. Quero ir perdendo, como quem perde alguma coisa, a noção do tempo, porque quando me lembrar da minha juventude, vai surgir na minha mente que alguém me disse que o tempo não tem de ter noção, nem deixar de ter, porque simplesmente, não existe. Então os minutos e as horas só farão sentido até ao dia em que em que tiver alguma coisa para fazer e por isso, quando tiver 101 anos mudo de país para poder ocultar a minha idade e poder fazer algo pela concretização de alguma coisa que tinha durante, precisamente 101 anos, guardada na minha memória. (Ah, vou ter que ter uma agenda pois é bastante fácil visualizar a minha memória a fraquejar quando ela mais falta me fizer…). Quando me achar, vou enfim saber porque razão nasci e com que motivo…Não irei esquecer os meus amigos, inimigos ou familiares e muito menos os meus amores. Foram eles que me fizeram velha de 300 anos afinal. Ou pelo menos, a isso me ensinaram. Vou, nos meus 300 anos, ter tantas rugas que nem os mais caros produtos de beleza suavizarão a minha pele incrustada e gasta. E se for bonita, sê-lo-ei à minha maneira pois por essa altura já terei percebido que a beleza é falsa e efémera e que provém da Natureza, e a Natureza, ela própria a dá como se encarrega de tirá-la. Vou ser velha e terei um álbum de fotografias invejável a qualquer um. Direi que tive os melhores amigos do Mundo, os rivais mais corajosos e amores mais românticos que existiram. E as pessoas a quem essas coisas contar…Oh, essas! vão sentir inveja e possivelmente nem irão acreditar numa velha de 150 anos com um aspecto terrivelmente mais jovem. Vou conhecer coisas de gente nova, tecnologias de ponta e vou mentir sobre a minha idade. Terei, sem dúvida, que falsificar documentos para provar que estou viva, ou que simplesmente nasci noutra altura. Vou usar apenas o necessário, deixando os excessos para os jovens desse tempo que tanto prazer terei em lhes ensinar o que lhes for útil. Conhecerei pessoas incríveis e pessoas horríveis e vou ter o privilégio de assistir a revoluções de algumas coisas, literárias ou científicas, quaisquer umas…Vou assistir à evolução do Mundo e do meu projecto durante 300 anos, se é que projecto se pode chamar. Quando completar 290 anos para resistir às doenças que parecem aproximar-se, já terei tomado muitos medicamentos inovadores para tratar as minhas lesões e enfemeridades. Vou tentar ser extravagante e continuar sempre com uma vontade insaciável de aprender, terei tempo para aprender pintura e para rabiscar alguma coisa nas paredes do quarto que irei ter. Vou respirar milhares de vezes nos meus 300 anos e o meu coração já terá pulsado cerca de 9460800000 vezes…Vou morrer cansada de tanto respirar e palpitar. Vou fechar os olhos, olhar para trás cheia de saudades de tantos anos (pouco ou muito vividos…). E, peço então, gentilmente ao meu coração que se esqueça de bater, como um velhinho com Alzheimer se esquece de como andar. Vai parando, lentamente….vagarosas, as minhas células vão asfixiar com falta de oxigénio e a íris dos meus olhos perdem, sem se aperceberem, a cor que ainda lhes restava perder…O meu corpo, esta máquina natural, vai com a minha mente, como que se melhores amigos se tratassem, morrendo. A minha mente vai seguindo o meu corpo até onde quer que ele aguente, até se fartar. Sim, não lhe exigirei mais que isso porque nessa mesma altura ela será livre e, quando achar necessário, há-de ir embora também, longe de preocupações, perto de quem a quiser ter por perto…
Daniela. Outro dia qualquer.
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